Investimentos

Época dos dividendos está à porta. Como encaixar dinheiro extra com ações?  

Há empresas que repartem os lucros pelos acionistas com dividendos. Saiba qual é a melhor estratégia e que impostos tem de pagar.

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Época dos dividendos está à porta. Como encaixar dinheiro extra com ações?  

Há empresas que repartem os lucros pelos acionistas com dividendos. Saiba qual é a melhor estratégia e que impostos tem de pagar.

Chegou a época em que as empresas divulgam as contas anuais e anunciam se vão pagar dividendos. Mas, afinal, que tipo de remuneração é esta?

Comprar ações de empresas, e, portanto, parcelas do capital social destas companhias (em bolsa ou não) confere vários direitos aos titulares destes instrumentos financeiros, a começar por direitos de voto nas assembleias-gerais de acionistas, entre outros. Em matéria financeira, investir em ações permite ganhar com a valorização dos títulos dentro de um determinado período, podendo vendê-los mais tarde em bolsa ou numa operação de compra dessa empresa por outra, por exemplo. Mas ganhar dinheiro com ações não fica por aqui, havendo a possibilidade de conseguir um rendimento “extra” periódico, mas não garantido, com dividendos. 

O que são dividendos? 

Quando uma empresa lucra, este dinheiro é encaixado em reservas ou provisões para acautelar o futuro, mas também pode servir para remunerar quem colocou dinheiro no capital da empresa, por outras palavras: os acionistas. Assim, o conselho de administração pode deliberar a distribuição de dividendos, que uma vez aprovada em assembleia-geral de acionistas acaba por chegar ao bolso de quem comprou os títulos. 

Quando uma empresa toma este tipo de decisão, por norma fá-lo depois de registar lucros ou antecipando os mesmos de um determinado exercício, que em Portugal tende a referir-se às contas do ano.  

Por regra, este tipo de remuneração é paga pela proporção de capital detida pelo acionista, daí que o dividendo seja calculado por ação. Por exemplo, no ano passado, após apresentar o relatório e contas referente a 2023, a EDP anunciou que iria distribuir aos seus acionistas um dividendo bruto de 0,195 euros por ação. Isto significa, que um investidor que detenha 10 títulos da EDP, terá ganhado em termos brutos 1,95 euros.  

No entanto, tenha em conta que nenhuma empresa é obrigada a pagar dividendos, ainda que empresas maiores como a EDP tenham políticas de remuneração a longo prazo, havendo mesmo quem aponte números concretos e múltiplos de crescimento. É o caso da Galp cujo “quadro de remuneração do acionista considera um dividendo base progressivo em dinheiro, crescendo a 4% ao ano”. Ainda assim, mais uma vez frisamos: esta é apenas uma previsão e não uma garantia. 

Dividendos pagam impostos. Faça as contas  

Ao receber dividendos tenha em conta que estes pagam impostos, IRS no caso dos investidores particulares e IRC, se for uma entidade coletiva, como uma empresa. Voltemos ao exemplo da EDP. Neste caso, os investidores particulares tiveram de pagar, através de retenção na fonte, tendo sido cobrada uma taxa de 28% em sede de IRS e de 25% no âmbito do IRC, no caso das pessoas coletivas.  

Em termos líquidos, tal significa que cada investidor individual terá recebido cerca de 14 cêntimos por ação (menos cinco cêntimos que o valor bruto) e que cada entidade coletiva deverá ter ficado com 0,146 euros em remuneração por título.  

No momento da entrega da declaração de IRS pode optar por englobar este tipo de remuneração no bolo dos restantes rendimentos.  Ao escolher esta possibilidade, poderá declarar apenas metade do valor bruto dos rendimentos, o que, feitas as contas, pode significar pagar menos imposto.  

No entanto, ao escolher esta opção todos os rendimentos de capitais, incluindo juros de depósitos e Certificados têm de ser englobados. Tudo dependerá assim, de como está alocado o seu portfólio de investimento. Por norma, sendo a taxa aplicada em regime de retenção na fonte, este trabalho já é feito pelos intermediários financeiros.  

Dividendos de empresas internacionais com cuidados especiais  

Ainda olhando para os impostos em pagar, deverá ter em conta uma série de cuidados extra, caso a empresa em que está a investir e que vai pagar o dividendo, ou o intermediário financeiro através do qual é realizado este processo, não tenham sede em Portugal.  

No limite, se não tiver este cuidado, poderá mesmo ser alvo de dupla tributação, ou seja, ser taxado por dois países diferentes. E não é preciso ir longe para que aconteça uma situação deste género. Se investir na EDP Renováveis, por exemplo, que é cotada na bolsa de Lisboa mas está sediada em Madrid, deve assegurar que, caso seja pago o dividendo, este está presente na sua declaração de IRS.  

No caso de aplicar o seu dinheiro em ações norte-americanas é comum que seja alertado pelo seu intermediário financeiro a preencher um formulário específico, conhecido como W-8BEN. Depois de este documento ser aprovado, a taxa a pagar pode passar de 30% para 15%. O que significa que não só está a “escapar” a um imposto mais elevado nos EUA, se comparar os 30% aplicados nesse país com a taxa liberatória de 28% aplicada em Portugal, como está a pagar menos do que se investisse em ações europeias.  

Na hora de declarar estes rendimentos deverá ainda perceber se o seu intermediário financeiro está ou não sediado em Portugal, pois se a resposta for negativa, terá de ter o cuidado de preencher o anexo da declaração do IRS, referente aos rendimentos obtidos no estrangeiro.  

Quadro com evolução de ações

Como saber se um dividendo é “bom”?  

Em finanças, há uma série de indicadores que permitem apurar se um dividendo pode ou não valer a pena, face às contas da empresa e perante o desempenho das ações, se estas forem cotadas em bolsa. Os mais comuns são  payout ratio e dividend yield

Payout ratio  

Seja a empresa cotada em bolsa ou não, este indicador permite perceber a proporção do valor distribuído aos acionistas, face aos resultados do período, a que se refere o dividendo. É calculado através da divisão da remuneração total aos acionistas, pelos resultados líquidos no exercício. 

Uma cotada que distribua 70 milhões de euros aos acionistas depois de ter terminado o ano com um lucro de 100 milhões de euros, apresenta um payout de 70%. 

Avaliar se o payout é alto ou baixo depende sempre da atividade da empresa, do setor que integra, dos indicadores que apresenta (dívida, cash flow)  e do histórico. Mas os analistas advertem que rácios acima de 100% (empresa distribuir em dividendos uma soma superior aos lucros obtidos) pode não ser sustentável, sobretudo se acontecer de forma recorrente. Indica que a empresa poderá ter de endividar-se para remunerar os acionistas. 

Por outro lado, payouts reduzidos (muito abaixo de 50%) também podem ser justificados, caso a empresa esteja num ciclo de investimentos e encontra oportunidades mais rentáveis para os acionistas do que lhes devolver uma grande fatia dos lucros. 

Dividend yield 

No caso da empresa ser cotada em bolsa, este rácio divide o valor do dividendo por ação pela cotação da ação e mostra-nos qual é a rendibilidade do dividendo (a rendibilidade do investimento é determinada também pela variação da cotação). 

Por exemplo, se uma empresa que está a negociar em bolsa com uma cotação de 100 euros pagar um dividendo de 5 euros, o dividend yield é de 5%. Não há números mágicos que nos digam a partir de que yield o dividendo é considerado atrativo.

Não espere pelo último dia para obter o dividendo  

Depois de ser anunciado pela administração da empresa, e aprovado pelos acionistas em assembleia geral, é comunicada uma data em que a remuneração será colocada na conta de quem detém as ações. 

Contudo, a data mais importante é aquela em que a ação desconta o valor do dividendo, que é conhecida por ex-dividendo. Por exemplo, se uma empresa paga o dividendo no dia 18 de maio, entra em ex-dividendo no dia 16 de maio (sempre duas sessões antes, no caso da bolsa de Lisboa). 

Um investidor que detenha ações desta cotada até ao fecho da sessão de 15 de maio, vai receber dividendos a 18 de maio. Mas se comprar a 16 de maio já não receberá a remuneração. É por isso que nesse dia do ex-dividendo a cotação da ação ajusta o valor da remuneração, com uma queda dos títulos.

Muitos investidores optam por comprar ações uns dias antes do pagamento para embolsar a remuneração, vendendo os títulos no dia do ex-dividendo, visando que o ajuste da cotação seja inferior ao valor do dividendo. É uma estratégia especulativa de muito curto prazo e por isso não aconselhável a investidores não profissionais. 

Reinvestir dividendos ou ficar com o dinheiro?  

São muitos os índices de ações em bolsa, como o alemão DAX, cuja pontuação (que funciona como uma espécie de preço agregado, tendo em conta o desempenho das empresas que compõem estas montras do mercado), é calculada não só face às subidas e descidas das ações que fazem parte deste índice no dia, como tem em conta a possibilidade de reinvestimento dos dividendos pagos por estas cotadas. 

Apesar de o reinvestimento de dividendos ser uma presunção, é utilizada várias vezes em finanças para calcular o preço dos ativos. E existe uma razão lógica para isso, Na realidade, uma boa estratégia pode passar por voltar a aplicar o montante arrecadado pelos investimentos em novas ações ou parcelas de ações, um método que pode ser replicado no caso das obrigações com os juros recebidos periodicamente.  

Esta estratégia pode vir a fazer crescer o património da sua carteira. Claro que antes de adotar este método deve fazer várias perguntas tais como: esta empresa paga dividendos periodicamente, de forma a garantir um efeito exponencial? As contas e outros fatores relacionados são estáveis, de forma a esperar um crescimento sustentável do negócio e consequentemente do preço das ações? Só depois de ter resposta a esta (e outras) perguntas, deve decidir se fica com este dinheiro ou o reinveste.  

Os aristocratas dos dividendos: Investir através de ETF 

Ainda que seja possível distribuir dividendos fora da bolsa, por norma, para o pequeno investidor o mais comum é arrecadar este tipo de remuneração através do investimento em ações no mercado regulamentado. Mas que ações escolher, se a estratégia assentar sobretudo em receber dividendos e reinvesti-los?  

É para dar resposta a esta dúvida que surgem os índices dos dividendos, também conhecidos como os aristocratas em bolsa. No entanto, estes índices não podem ser investidos diretamente. No entanto, são bastante utilizados como ativo subjacente de fundos negociados em bolsa (ETF), que replicam o seu desempenho, pelo que a evolução do índice reflete-se na valorização ou queda da participação detida no ETF. Além disso, estes instrumentos tendem a distribuir dividendos de forma periódica. 

Por exemplo, para quem quer investir nos mercado norte-americanos e europeu existe uma série de índices, replicados por ETF, que selecionam as empresas com maior histórico em matéria de distribuição deste tipo de remuneração.  

O S&P 500 Dividend Aristocrats reúne as cotadas que nos últimos 25 anos aumentaram consecutivamente os dividendos. Para os mais exigentes, de referir o S&P Dividend Monarchs Index, que só aceita cotadas que tenham aumentado as remunerações, de forma ininterrupta e anual, nos últimos 50 anos. Para investir nestes índices, pode optar por vários fundos como o ETF da State Street que replica os aristocratas da bolsa ou o Monarch Dividend Plus Index ETF, se preferir os monarcas da bolsa.  

Do lado de cá do oceano Atlântico, a S&P lançou em 2005 o S&P Europe 350 Dividend Aristocrats, que reúne 38 cotadas do S&P Europe 350 Europe. Pelo Velho Continente existe ainda o índice Stoxx Europe Maximum Dividend 40. O índice é composto por cotadas do Stoxx 600 que detenham a maior dividend yield do benchmark europeu. Para estes índices existem também vários ETF como o SPDR S&P Euro Dividend Aristocrats, também da State Street, ou o Deka STOXX Europe Strong Style Composite 40 da Deka Investments.  

Dividendos fora da caixa e recompra de ações  

O mais habitual é que os dividendos sejam pagos em dinheiro, mas há outras formas. Assim, as empresas podem decidir pagar com mais ações (por cada título detido) ou fazer outro tipo de pagamento em espécie. Este tipo de soluções gera apenas um problema: o da fiscalidade, já que as taxas que apresentámos anteriormente se aplicam apenas a dividendos efetivos, ou seja, segundo a definição fechada do Código dos Valores Mobiliários (CVM).  

Por exemplo, em 2023, a Altri, uma empresa da indústria do papel cotada na bolsa de Lisboa, em vez de pagar apenas um montante em dinheiro por ação atribuiu a cada acionista um número de ações da Greenvolt, outra cotada energética da qual a Altri tinha parte do capital, com base no fator 0,112877 e um dividendo em dinheiro de 0,25 euros por título. Este foi assim uma espécie de “cocktail” entre dividendo em espécie e remuneração em dinheiro.  

Por cada 11 ações da papeleira, os investidores receberam uma da Greenvolt e um bónus de 2,5 euros. Ora feitas as contas do total recebido, o dividendo em dinheiro, neste exemplo, foi objeto de retenção na fonte e foi suficiente para pagar a taxa de 28%. 

Recompra de ações: Pagar dividendos sem o fazer 

Além (ou em vez) de pagar dividendos, há empresas que optam pela recompra de ações, ou seja voltam a adquirir parte do capital aos investidores. Esta é também uma forma de remuneração, na medida em que é pago um preço pela companhia a quem está disposto a vender e tende a valorizar os títulos, por haver uma mão compradora consistente, para quem prefere continuar a manter em carteira.  

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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